Helea (conto I)

No rádio do velho chevrolet escuto sonic youth, o sol desaparece lentamente no horizonte distante. Não sei se aquilo tudo aconteceu de verdade, mas uma coisa é certa, eu nunca mais a vi. Madrugada fria de um dia qualquer de junho de 1987. Foi quando eu a encontrei. Helena não deveria ter mais do que 20 anos e sabia muito bem o que queria quando me pediu fogo. Na atmosfera densa do bar onde estávamos havia um cheiro insuportável de fumaça e álcool. Resolvi convidá-la para sair daquele lugar, caminhar sob o sereno, respirar um pouco de ar puro, e para a minha surpresa ela aceitou. Conversamos sem parar como se fôssemos grandes amigos. Alguma coisa me atraía no seu jeito direto. Ela tinha cabelos castanhos-avermelhados e seus olhos verdes faiscavam juventude e malícia. Era tudo o que eu precisava naquele momento. Quando as primeiras claridades da manhã começaram a despontar no céu e ela sugeriu que fossemos a um outro lugar para continuarmos a nossa conversa topei na hora. No apartamento em que eu morava as janelas estavam fechadas para que o sol não nos incomodasse. Era como se a noite ainda não tivesse terminado. A única luz vinha através do aquário, onde alguns peixes nadavam entediados enquanto nós escutávamos Cocteau Twins. Perguntou-me se podia acender um baseado para que ficássemos mais à vontade. Eu falei que sim, que fazia muito tempo que eu não fumava, mas que seria bem legal. Fumamos, falamos e rimos muito. De repente um beijo. O primeiro de uma série. Os lábios dela eram macios e carnudos, o belo corpo possuía pernas grossas e longas que tinham pés delicados, longos também eram seus braços, as mãos eram macias e bem desenhadas, seus seios eram pequenos e quentes e a pele branca era salpicada de minúsculas sardas que tinham a cor do cobre. Disse-me que não havia restrições, que estávamos libertos de tudo e de todos, que poderíamos nos entregar completamente um ao outro. Foi o que fizemos, de maneira doce e também selvagem. 13hs, olhei para o relógio que ainda resistia vitorioso em meu pulso e a vi em segundo plano sorrindo para mim. Depois disso o cansaço me fez adormecer e sonhar com paisagens de estranha realidade, guardadas nos labirintos distantes da minha mente. Agora estou sentado sob a sombra de uma enorme árvore e me distraio olhando um riacho de águas transparentes que correm próximas aos meus pés descalços. Estão repletas de pequenos peixes multicoloridos. Os mesmos do aquário. Eles me fazem sentir uma paz indescritível. Eu, a grande árvore, as águas e os peixes do riacho, o céu azul, as nuvens em forma de palhaços que sorriem para mim, as ovelhas sobre uma planície esverdeada, somos um só. Ao longe, crianças brincam nas proximidades de um muro amarelo infinito. Às minhas costas há um campo de flores e arbustos que se misturam como em um caleidoscópio. Pouco a pouco o orvalho se junta à terra e vai assumindo a forma da mais bela donzela. Chama-se Helea ao invés de Helena, mas são a mesma pessoa. Ela me olha e sem mover os lábios diz que me ama. Seu hálito tem perfume de anis que refresca o meu rosto e me envolve por inteiro. Num piscar de olhos a cena se desfaz e eu escuto uma música que vai aumentando bem devagar: Love you till twesday. Sentado em um banco de pedra David Bowie canta e me acena como um velho conhecido. Um de seus olhos está estático e parece me fitar até ir se transformando em réstia solar que invade o quarto, ofusca as minhas retinas e me acorda. São 16hs e 27min, estou sozinho e, apesar do frio lá fora, completamente molhado de suor. No aparelho de som ainda está tocando Love you till twesday. O apartamento está mergulhado em uma espécie de vazio, silêncio profundo e triste. Um leve perfume de anis paira no ar. Não tenho certeza dos acontecimentos. Não sei ao certo se viemos até aqui, se é que eu tenha saído na noite anterior. Ainda estou meio tonto, confuso. Fora a cama desarrumada e as marcas de mordidas dispostas harmoniosamente em cada um dos meus ombros, tudo está em seu devido lugar. Tanto tempo se passou, tantas outras histórias: risos, amigos ao longe, solidão em mim, vivendo em mim. Estou saindo de férias hoje, rumo ao litoral norte de São Paulo. No rádio do velho chevrolet escuto sonic youth, o sol desaparece lentamente no horizonte distante...

3 comentários:

JU disse...

LINDOOOO

Gustavo Uriartt disse...

Interessante a narrativa...

Anônimo disse...

belas palavras nos conduzem bem nesta viagem desejada...