03/10/2009

Vendia aquelas que eram consideradas as melhores pamonhas na região do Alto-Tietê. Mas isso, apenas em outras cidades. Na dela, tinha fama de ser uma mulher estranha. Lá, somente os desavisados turistas lhe compravam a deliciosa iguaria feita com milho cremoso.
Os mais velhos diziam que Bastiana Rodeira preparava as pamonhas, pela parte da manhã, dentro da mesma gamela com água onde lavava as partes íntimas na noite anterior.

28/08/2009

O anão era o cara

Início dos anos 80. Em uma boate suspeita, com nome de nave espacial, reuniam-se personalidades que seguidamente figuravam nas croniquetas pequeno-burguês do jornal, de edição semanal, de Picapoca. Pois diz que numa madrugada de sexta para sábado estavam na tal boate, junto à mesa mais entusiástica do lugar, um ex-prefeito, Dna. Marly a poderosa cafetina, três garotas da noite, um cara do ramo imobiliário, o garçom aquele que tinha todas as manhas e o Clóvis, mais conhecido por Clovinho, o Anão. Clima de muita animação. No mesmo local, rolava um show de strip-tease brega, barulheira de copos, burburinho de outros frequentadores, muita fumaça e um cheiro empesteante de álcool no ar. Como se o próprio Demônio Algol tivesse passado pelo antro. Ah sim, e vários cantinhos mal iluminados onde casais se esfregavam, sem maiores pudores, antes de subirem em direção aos quartos que ficavam numa parte anexa do inferninho.
Aí que lá pelas tantas encresparam com o Clóvis e começaram a tirar o maior sarro dele. Aquelas coisas: piadinhas sobre anões, risadinhas cínicas e tal. Como diziam umas figuras da antiga, tiraram o baixinho pra Cristo.
Quanto ao Clovinho, bom, o Clovinho só na dele, quieto. Mas a encheção foi tanta que começou a ficar constrangedor. O ex-prefeito que já estava pra lá de Bagdá, em dado momento, queria saber como é que o anão fazia pra cagar. O cara da imobiliária, tirou o rosto que estava mergulhado entre os seios fartos de uma das garotas para responder que decerto o anão cagava em um penico com medo de cair e morrer afogado dentro da privada. Risadeira total. Dna. Marly chegou a se engasgar com um gole de Campari. E o teu pinto Clovinho? Precisa de uma lente pra encontrar o fiapo quando vai mijar? Perguntou o garçom em tom sarcástico. Novo ataque de riso em todos. Uma barbaridade, aquilo não podia ficar assim. Pareciam um bando de bufões. Totalmente sem limites, completamente escrotos.
Foi daí que o nanico, sem falar nada, de maneira muito tranquila, subiu sobre a cadeira na qual estava sentado. Ficou com a cintura praticamente alinhada à altura da mesa. Abriu a braguilha da pequena calça e deixou que tombasse sobre o móvel um pênis descomunal, que mesmo em posição de repouso chegava perto dos 20 cm. Ficaram todos boquiabertos e de olhos arregalados.
Naquele final de madrugada, o Clovinho acabou levando duas das garotas para um dos quartos e depois de 50 minutos pediu que a terceira também subisse. Nunca mais serviu de chacota para os clientes da nave-mãe. Virou lenda.

28/05/2009

O céu, a noite, o mar e eles dois

A primeira vez que fizeram amor, estavam levemente embriagados. Era noite, foi entre os cômoros ainda quentes pelo sol do final de uma tarde de primavera, na segunda metade dos anos 90, do século XX. O som das vagas que quebravam à beira mar embalava, fazia brincarem os corpos ávidos de prazer. Tinham como testemunha a lua, em fase crescente, absolutamente cúmplice daquilo tudo. Acima deles, Orion resplandecia concupiscente. O gigante salpicado em estrelas lhes protegia e lhes abençoava. Sentiram-se seguros, libertos, completos, iluminados.
- Olhe dentro dos meus olhos ela pediu, para em seguida lhe beijar nos lábios, enquanto sorria, toda assanhada.




Texto: Luciano.
Imagem: Livre adaptação para uma obra de Vicktor.

08/05/2009

Feito fera

Meu coração segue veloz por uma estrada vazia. Um andarilho, em desatino, que grita e conhece a dor.
Iblis, o último anjo decaído, dizia que somente os não invictos a ela sabem fazer rimas perfeitas sobre o amor.
Meu coração continua. Quantas vezes ele erra. Caminha entre as sombras, rastro de luz. E vai, feito fera, dilacerando a própria ferida...
Luc.
(livre adaptação à Canção do Abutre, de Hique Gomez)

28/04/2009












Ao debruçar-se no parapeito do lugar viu uma vez mais a linha do horizonte em todas as direções e pensou que nunca o nome “Terra” tivesse lhe assumido um significado tão real e verdadeiro como naquele instante. Pulou, estava livre, despojado de qualquer amarra, de qualquer dúvida que pudesse lhe segurar neste plano, nesta agonizante e fria concretude. O vento no rosto, o suor gelado nas mãos, o coração acelerado, a queda, o letreiro seis andares abaixo que se espatifou em dezenas de pedaços, atravessado pelo corpo monocromático sem asas. E de repente o baque e uma forte batida com a cabeça, e o gosto metálico de sangue na boca, e os sons que iam ficando cada vez mas distantes. Sentiu uma paz interior indescritível, um amor incondicional pelo rosto de alguém que corria em sua direção, e ainda teve tempo de ver o semáforo do cruzamento próximo acender a luz vermelha para fazer os carros parar. No alto, a abóbada de um céu azul que, pouco a pouco, foi se fragmentando em escuridão silenciosa.

Imagens e texto, por Luciano.


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Dando o toque:
Raio Percentual do Tempo: Indie

17/04/2009

Um conto para meninos e inexistentes Bandas de Rock

...Depois de uma reunião do PCACV, explico, PCACV era a sigla para: Partido da Comunidade Alternativa da Casa do Valmir. Era lá, no quarto do velho Val que nos enfurnávamos nas tardes de sábado a escutar música, falar sobre música, fazer música e outros pequenos delitos que eventualmente deixavam a sede do Partido bastante esfumaçada.
Naquela época, nós éramos os caras da ID. ID, por sua vez, era a banda de Rock na qual tocávamos.
Ao longo de quase uma década de encontros, nas tardes de sábado, em outras sedes com nomes tão esdrúxulos quanto PCACV, várias foram as bandas formadas por nós: Mocho Orerulho, Aphoskuras Barbiquideas, Tusken Raiders, Barth-Canani-Pfeifer-Silvoleiros, Taverna do Duende Verde, Os Seres do Amanhã, Torquatum Netum, além dos trabalhos solos-experimentais, de alguns malucos da tchurma, dos quais destaco: o Professor Lindenbrook e o Chinese Funck.
Bom, voltando dessa pequena digressão... depois de uma reunião na sede do PCACV os caras da ID saíram para dar umas voltas e tirar fotos próximo às torres de alta tensão. Aquelas, em um terreno descampado e alto, no sentido Taquara-Porto Alegre. Lá de cima, de longe, a cidade onde nossos pais moravam parecia ainda menor.
Imagem: Fragmento do antigo mural do PCACV, por Luciano.
Trilha ideal: Defalla - Repelente

14/04/2009

Viu-a caminhando entre tantas outras pessoas naquela tarde quente do verão de 1990 e teve certeza. Era ela. Beleza em forma feminina, feito Eva brotada da costela do primeiro homem. Até mesmo Vênus sentiria um pouquinho de ciúmes.
Com os pensamentos imersos em lúcidos sonhos diurnos, seguiu-a pelas ruas da cidade. Ao todo, foram três longos e abençoados quarteirões. Viu-a de perto, de longe, de perfil, de frente, de trás. Apreciou o desfile sensual e longilíneo, os cabelos ruivos e curtos, os olhos verdes, a pele dourada pelo sol, as costas bem desenhadas e salpicadas de pequenas sardas harmoniosamente dispostas. Musa reencarnada. Quem é você?
Mas daí a pouco caiu em si, na loucura que estava fazendo e resolveu parar com aquilo tudo. Ainda teve tempo de admirá-la uma vez mais, antes de dobrar a esquina da Osvaldo Aranha com a José Bonifácio. Não podia, não era certo, ou seria?! Ficou sem saber a resposta. Achou melhor cessar, voltar para casa. Voltar à segurança ilusória e monótona do marido e para o casal de filhos pequenos que amava tanto. Ao fundo, em segundo plano, pessoas, em um ponto de ônibus, esperavam pelo transporte que ainda não havia chegado.
Texto por Luciano Pfeifer. Trilha sonora by The Church. Imagens por conta do leitor.