Foi por 2004 que, inspirado pelos escritos do Oliver Sacks, escrevi este pequeno conto.
---------------------------------------
Acordou cerca de 96 horas depois, tomado por uma sensação de espanto. O quarto da unidade de tratamento e os abjetos que se encontravam ali pareciam de cimento ou algo parecido. Onde deveriam existir cores, apenas tons de preto, branco e cinza. Ficou angustiado, sentiu-se fraco. Havia alguma coisa vazia na maneira dele perceber o mundo ao seu redor. Pensou que a cena fosse parte de um sonho ruim, de algum tipo de alucinação. Lembrou-se da correria anterior aquilo tudo. Do telefonema para os pais e do tropeço quase infantil no cordão desamarrado do tênis de marca ordinária. Lugar errado, no alto da escada que ligava a sala de estar ao andar superior da casa. E de repente um tombo e uma forte batida com a cabeça, e o gosto metálico de sangue na boca e a reprodução de uma tela de Gustav Clint que, pouco a pouco, foi se fragmentando em escuridão silenciosa. Ficou sabendo pelo neurologista que o acidente que sofrera tinha causado um dano irreversível no córtex visual. As cores jamais seriam recuperadas. Era como se o mundo ao seu redor fosse visto, a partir daquele momento, como um filme em preto e branco. Não conseguia nem ao menos imaginar as cores, lembrar delas. Quando tentava pensar em imagens coloridas, vinham-lhe à mente formas perfeitas, mas nenhuma cor. Todas as coisas passaram a ter um aspecto apagado e de uma hora para outra, passou a viver em um mundo apático repleto de sombras, habitado por criaturas que lhe pareciam estátuas vivas. Com o passar do tempo, mesmo depois de aceitar o que havia lhe acontecido, percebeu algo. Não foram somente as cores que tinham ido embora. Algo mais se perdera naquela queda, naquele acidente. Por mais que se esforçasse, não conseguia expressar qualquer tipo de sentimento em relação ao mundo no qual vivia. Era como se ele não conseguisse mais tomar consciência de suas emoções, muito menos exprimi-las. A cada novo dia, sua dificuldade para se relacionar foi aumentando. Não conseguia mais estabelecer laços, não se identificava mais com o que as pessoas sentiam, não percebia as reações que as palavras que lhe eram ditas provocavam nele. No início com as pessoas mais distantes, e chegou a pensar que fosse apenas indiferença da sua parte, depois com os mais amigos e finalmente com os entes mais próximos. Acabou partindo para o isolamento, para um auto-exílio da vida social, tornando-se uma pessoa taciturna, vista em raríssimas exceções, como no enterro de um grande amigo e antigo colaborador, da época em que trabalhara como músico de uma companhia de teatro. Na maior parte do tempo ficava em casa cuidando dos peixes do aquário, escutando Billie Holiday, relendo velhos livros empoeirados e bebendo. Bebendo e fumando muito. Não ligava mais para o seu corpo, ficava dias sem tomar banho, sem escovar os dentes, sem se alimentar direito, sem dormir direito. E foi numa terça-feira depois da chuva calma de primavera e de sentir o cheiro de terra molhada que resolveu morrer. Não queria mais nada daquele mundo descolorido e sem emoções. Na manhã seguinte, depois de se banhar, fazer a barba e tomar café se dirigiu para o centro da cidade e subiu até o terraço de um edifício público. Lá em cima uma brisa suave acariciava os seus cabelos e lhe trazia odores urbanos que ele identificava um a um. Olhou para os demais prédios e casas, para o movimento das ruas, às pessoas que levavam uma vida normal, rotineira. Lembrou dos pais, da infância, da juventude, das aventuras amorosas, dos amigos, dos tempos de músico na companhia de teatro, de tantas coisas passadas, imagens antigas. Ao debruçar-se no parapeito do lugar viu uma vez mais a linha do horizonte em todas as direções e pensou que nunca o nome “Terra” tivesse lhe assumido um significado tão real e verdadeiro como naquele instante. Pulou, estava livre, despojado de qualquer amarra, de qualquer dúvida que pudesse lhe segurar neste plano, nesta agonizante e fria concretude. O vento no rosto, o suor gelado nas mãos, o coração acelerado, a queda, o letreiro seis andares abaixo que se espatifou em dezenas de pedaços, atravessado pelo corpo monocromático sem asas. E de repente o baque e uma forte batida com a cabeça, e o gosto metálico de sangue na boca, e os sons que iam ficando cada vez mas distantes. Sentiu uma paz interior indescritível, um amor incondicional pelo rosto de alguém que corria em sua direção, e ainda teve tempo de ver o semáforo do cruzamento próximo acender a luz vermelha para fazer os carros parar. No alto, a abóbada de um céu azul que, pouco a pouco, foi se fragmentando em escuridão silenciosa.

6 comentários:

Gabriela disse...

Claro Luciano, claro que podes adicionar o meu blog aqui também :)

Bom fim-de-semana.

bbarth_rs disse...

Nossa, Valda...
Que texto forte, me fez vir nos olhos aquele marejado incontrolável de uma forte emoção.
Num resto de vida a emoção de recuperar o valor perdido.
Como um bom leitor, só posso lhe dar os Parabéns e agradecer por proporcionar tal leitura.
Um abraço
Bido

Gustavo Uriartt disse...

oi luciano! por acaso "zingut" é vc.? a márcia é que me falou que de campinas pode ser vc., havia um comentário no meu "blog" sobre a festa junina na casa rosada, mas que havia sido retirado pelo autor... é vero? dexalá... abração.

Carmem Salazar disse...

Luciano, que forte esse texto...
Quero te dizer que o teu comentário foi uma surpresa muito legal pra mim, além de ser o 1° no meu blog!

Grande abraço, querido.

Ana Lúcia disse...

Bah, arrepiei! A beleza na dor...a vida na morte...ver o belo em tais contradições, realmente me arrepia!
Abração

milu leite disse...

gostei do conto. acho que li o mesmo livro do oliver sacks que te inspirou... aliás, li 3 livros dele, todos muito inspiradores, né?
ab