Doris almoçou em silêncio na companhia dos pais e dos três irmãos mais novos: Nascimento, Frederico e Thereza. Os dois meninos eram gêmeos com cabelos da cor do fogo, olhos verdes esbugalhados e uma estranha mania de colecionar minhocas e outras tipos de vermes que encontravam. Falavam entre si numa língua entendida apenas pelos dois e agiam muitas vezes como se fossem uma única pessoa, tamanho o entrosamento e a ligação mental que haviam adquirido desde o ventre materno. Contavam com dezessete anos enquanto a menina mais nova, Thereza, estava com quatorze. Era muda desde os sete anos de idade e segundo a mãe, Olga, havia ficado assim depois de presenciar a morte de um porco a facadas, para as festas do ano-bom. Os gritos daquele bicho miserável fizeram isso à minha pequena Thereza, dizia ela, como se a brutalidade daqueles que mataram o animal não tivesse influenciado em nada. A menina tinha fama de santa na cidade. Existiam relatos que durante uma missa pascal alguns doentes foram curados ao verem a jovem moça envolta em luz madrepérola, acompanhada de centenas de anjos. As pessoas, inclusive o padre Domingos, rezavam em total silêncio após a comunhão e caíram em prantos quando tomaram consciência do milagre que acontecera tão próximo a eles...

13 comentários:

Compulsão Diária disse...

Essa família..os ruivos e muda têm divindade abstrata. Os repulsivos também encantam como a Naja ;)
Surrealismo dá nisso qdo é bom. Tem sentido no fluxo sem direção aparente

manzas disse...

O mundo adormece na cama do céu
Enquanto permaneço acordado no teu roseiral…
Vigilante no teu galante corpo, rosa sem véu
Batem janelas inquietas, pétalas em temporal

Neste momento,
Desejo
Um bom fim-de-semana
Materializado em harmonia
Com muita alegria…
Um excelente CARNAVAL
Com muito divertimento
Desmascarando amor
Com paz,
Cheio de muita folia…

O eterno abraço…

-MANZAS-

Adriana disse...

Meio pagão, meio santo. Um delírio milagroso. Bonito.

Serjones disse...

interessante os diferentes pontos de vista sobre o impacto do "assassinato" do porco sobre thereza.

Adriana disse...

milagres acontecem...

Carmem Salazar disse...

gostaria de fazer a luz enigmática dessa cena.

bjo, Luciano.

Patrícia Coelho disse...

Tão lindo e comovente teu texto, Luciano.
Sempre bom quando postas um novo texto.
Ainda sou sua seguidora, viu? :) É que o Friends Connect está "em obras" e causando uma pequena bagunça em tudo. Daqui a pouco tudo volta ao normal.
Beijos!!!!

Luciano disse...

Queridos, sempre bom compartilhar meus escritos com vcs. Melhor ainda saber que de alguma forma vcs são tocados por eles.
Abração a todos.

milu leite disse...

adorei a estranha mania de colecionar minhocas. essas coisas sempre contribuem para um clima de suspense... aqui, acrescida da história do porco e das reticências no final. ficou bacana esse texto, luciano.
bjo

Renatinha disse...

O que mais me chamou a atenção foi o paradoxo familiar. Irmãos (gêmeos) com aparência demoníaca e manias doentias... Thereza (um nome, aliás, muito sugestivo) iluminada... santificada, e porque não dizer, purificada pela visão do sofrimento. Como seria Doris?

Luciano disse...

Milu, sempre bom receber a tua visita e os teus comentários.

Renatinha, é bem por aí. Sobre Doris, tenho alguns escritos que hora dessas vou postar.

Favorita disse...

Estranhamente lindo. Comovente,romantico. Nao sou uma boa critica, mas saiba que adorei.
beijos ZE

MERGULHANDO NAS PALAVRAS disse...

Luminoso texto!