Algumas formas fixas encontradas no léxico Sul-Rio-Grandense.

Pintura - Jungbluth: O Gaúcho
O Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil foi por muito tempo um território disputado entre as coroas de Portugal e da Espanha. Sua inclusão definitiva na esfera lusa data aproximadamente de 1737, época em que já existia uma rica tradição cultural em outras partes do Brasil. Os rio-grandenses criaram um modo particular de falar que se diferenciava das características típicas dos ‘gáutchos’ dos pampas cisplatino e platino. Os hábitos do churrasco, do chimarrão, da indumentária e quase toda a tradição permaneceram muito semelhantes após todo o período de ebulição, mas a língua foi diferenciando-se. Ao português falado na região foram incorporados diversos espanholismos bem como palavras e expressões de outros povos que ajudaram na colonização do Rio Grande do Sul: alemães, italianos, espanhóis, escravos vindos do continente africano, populações indígenas que ocupavam grande parte do território sul-rio-grandense, poloneses, russos e gente de outras origens em menor número. Esta postagem procurará demonstrar dois tipos de construções, bastante comuns, encontradas no léxico sul-rio-grandense, criadas a partir da necessidade lingüística dos falantes para se expressarem melhor: A primeira delas é aquela que identificaremos por Espressão Idiomática e que, segundo vários autores consultados, possui como principais características:
- Fixidez decorrente de um processo de cristalização que as torna estáveis (depois de constituídas por meio de regras da própria linguagem tornam-se imutáveis sofrendo pouca ou nenhuma variação); - São grupos de lexias que formam uma unidade à qual corresponde um só significado não dedutível da simples combinação dos conteúdos semânticos dos elementos que as constituem (ou seja, não obedecem o princípio da composicionalidade); - A estrutura da sintaxe de uma E.I. não é diferente da sintaxe das formas livres; - São geralmente construções que podem ser reduzidas a um sintagma verbal. A partir dessas observações, introduzimos algumas Expressões Idiomáticas correntes no estado do Rio Grande do Sul bem como os seus respectivos significados:
Afrouxar o garrão – Acovardar-se, amedrontar-se; Bater a alcatra na terra ingrata – Morrer; Bater a cola na cerca – Morrer; Enfiar água no espeto – Trabalhar inutilmente; Faquear a Guayaca – Pedir dinheiro. Lamber Esporas – Bajular; Levar buçal de couro fresco – Ser enganado; Passar a gravata colorada – Degolar; Pisar no poncho – Provocar; Queimar campo – Mentir; Tomar um chá de casca de vaca – Levar uma surra; Sacudir o poncho – Desafiar; Socar canjica – Andar mal a cavalo. O segundo tipo de forma fixa encontrada no léxico Sul-Rio-Grandense é aquela empregada em construções do tipo: ((advérbio de intensidade: mais)) (adjetivo) [conector comparativo que] {sintagma nominal}. Ex: Mais metido que dedo em nariz de piá. Como principais características podemos destacar as seguintes: - Fixidez na forma de acordo com a cristalização da estrutura sintática e da freqüência com a qual é empregada; - São grupos de lexias nas quais cada um dos elemento morfológicos mantém sua integridade semântica inalterada. O princípio da composicionalidade é respeitado; - Este tipo de construção pode ser reduzida a um superlativo sintético. Na maioria das vezes, estas sentenças são utilizadas para produzirem um efeito cômico no discurso sendo amplamente difundidas nas reuniões tradicionalistas, nos C.T.Gs (Centros de Tradição Gaúcha) espalhados em todo o estado, bailes, rodeios, festivais de música e em outras manifestações populares. Entre as construções pesquisadas destacamos algumas que demonstram estados e ou qualidades de alguém ou de algo. - Felicidade: Mais feliz que cusco de cozinheira; Mais feliz que mosca em rolha de xarope. Mais feliz que sapo em banhado; - Nervosismo: Mais nevoso que gato em dia de faxina; Mais nervoso que anão em comício. - Seriedade: Mais sério que defunto; Mais sério que cusco em chalana; - Aderência: Mais grudado que bosta em tamanco; Mais agarrado que carrapato em culhão de touro. - Comprimento: Mais comprido que suspiro em velório; Mais curto que coice de porco. - Enfeite: Mais enfeitado que bidê de china; Mais enfeitado que cavalo de cigano em dia de festa; - Extravio: Mais extraviado que chinelo de bêbado. - Beleza: Mais bonito que bergamota de amostra. - Demora: Mais demorado que enterro de rico. - Grossura: Mais grosso que cintura de sapo; Mais grosso que dedão destroncado. - Inutilidade: Mais inútil que buzina em avião. - Quietude: Mais quieto que guri cagado; - Perfumado: Mais perfumado que mão de barbeiro. - Viscosidade: Mais engraxado que telefone de açougueiro.
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Escritos sobre lexicologia e lexicografia.

Um comentário:

Guilherme Engel disse...

Legal isso dai, velho waldus das antiga.